A minha costela de escritor, que vai tentar escrever sobre a vida nas suas multiplas facetas. A partir daqui criarei (ou tentarei criar) obras de ficção, porque muitas vezes, a realidade é mais chocante.
A 22 de Janeiro de 1973, a noticia tinha brotado inesperadamente: em Paris, Os Estados Unidos, o Vietname do Norte e o Vietname do Sul tinha finalmente chegado a um acordo de paz, do qual ficou para a História como o "Tratado de Paris". Henry Kissinger, o enviado especial do presidente Nixon, tinha chegado a um acordo com Le Duc Tho, o Ministro dos Negócios Estrangeiros do Vietname do Norte, que visava o cessar dos combates e a retirada das tropas americanas da região. Após quase 30 anos de guerra, a paz, aparentemente, tinha chegado a aquele país do Sudeste Asiático.
Mais tarde, Kissinger e Tho seriam galardoados em conjunto com o Nobel da Paz desse ano, mas o ministro vietnamita recusou o prémio, pois nessa altura, o acordo tinha chegado ao ponto de "letra morta", pois os combates continuavam. Dois anos depois, a 29 de Abril de 1975, os norte-vietnamitas tomavam Saigão, terminando oficialmente a guerra, e a reunificação do Vietname, sob um regime de inspiração marxista.
Mas na CBS, no final de uma das peças referentes ao Acordo, vê-se Walter Cronkite ao telefone, com um dedo espetado, dando sinal de espera. Estava a receber a chamada de Tom Johnson, o adido de imprensa do ex-presidente Lyndon Johnson, informando que o antecessor de Nixon tinha acabado de falecer no seu rancho do Texas, vítima de ataque cardíaco. Johnson, então com 64 anos, sofria do coração há já vários anos, e semanas antes tinha sofrido outro ataque. Cronkite era o primeiro a saber, antes da concorrência, por um canal priveligiado. Era mais um sinal de que era de facto o melhor da sua profissão, e a CBS fora a primeira cadeia de TV a informar a morte do Presidente Johnson.
O ano de 1972 era de eleições. Richard Nixon procurava a reeleição, para ser o homem que ficaria à frente dos destinos da Nação no ano do Bicentenário. O Nixon público era completamente diferente do Nixon privado, obcessivo com tudo e com todos, trapaceiro, paranoico, oportunista, e que não olhava a meios para chegar a fins.
De Junho a Outubro, pouco se ligou ao escândalo, pelo menos fora de Washington e do "Washington Post" (Carl Bernstein e Bob Woodward estavam na secção da cidade, um departamento mais secundário). Era ano de eleições, e Nixon ia a caminho de uma assegurada reeleição, contra um candidado democrata, George McGovern, demasiado fraco, com uma agenda demasiado radical, logo, impotente para conter a "maré vermelha". Mas poucos dias antes da reeleição, a 27 de Outubro de 1972, Walter Cronkite apresentava uma matéria especial de 14 minutos (longo, muito longo para televisão) sobre o Caso Watergate, e demonstrava ao país a profundidade que este simples assalto à sede do Partido Democrata tinha. E ia, depois viu-se, até ao topo.
Se hoje em dia se louva Bob Woodward e Carl Bernstein pelo seu trabalho no deslindar do escândalo, e se refere Mark Felt (1913-2008) como a sua maior fonte (o famoso "Garganta Funda"), não se pode esquecer que Walter Cronkite também deu um empurrãozinho na divulgação, via TV nacional, do escândalo mais famoso da segunda metade do século XX.
O ano de 1968 já tinha chegado a meio, e o mundo andava em sobressalto. O Vietname era um atoleiro, Martin Luther King fora assassinado, e a campanha presidencial desse ano estava ao rubro, não tanto como o que se passa hoje. A campanha, apesar de ter todos os moldes que tem hoje, o momento decisivo não era em Março, mas sim em Junho, com as Primárias na California. E como depois da renuncia de Lyndon Johnson, era uma corrida aberta entre democratas, enquanto que no campo republicano, depois do fracasso que foi o extremista Barry Goldwalter, escolhiam um candidato mais consensual, o ex-vice presidente Richard Nixon, que fora derrotado por John F. Kennedy oito anos antes.
No caso democrata, três nomes sobressaiam: o vice-presidente de Johnson, Eugene McCarthy, o senador do Minessota, Humbert Humpfrey e o Senador por Nova Iorque Robert Fitzgerald Kennedy (RFK). Fizera campanha prometendo que assim que fosse persidente, iria trazer os soldados para casa. Anti-guerra, mais liberal que o seu irmão, também tinha experiências governaticva, como Secretário da Justiça, onde ficou mesmo depois da morte do seu irmão. Afastou-se do Governo para se candidatar a Senador por nova iorque, onde ganhou. E em Março de 1968, desafiando Johnson, anunciou a sua presidência.
A luta era renhida, e RFK perdeu alguns estados para Humpfrey, e tudo se jogava naquela solarenga tarde de Junho. E outro candidato estava na liça, e o natural favorito: o então vice-presidente, Eugene McCarthy. Antes da eleição, McCarthy estava na frente, mas uma vitória decisiva, numa contagem onde era "winner takes all", mesmo com um voto a mais, para Kennedy, significava que estava numa posição de força para a Convenção Democrata, em Chicago, marcada para Agosto. E nessa altura, as Convenções eram para valer, e não o "show-off" que estamos habituados a ver, pois nessa noite, Johnson dera ordens expressas a McCarthy e Humprey para que se juntassem, no sentido de derrotar RFK na corrida presidencial.
E na noite em que RFK faz o discurso de vitória e diz "agora vamos para Chicago", parecia que ele tinha o impulso para conseguir um milagre, que era a nomeação democrata, contra Nixon. Mas o destino foi cruel: um desiquilibrado de 21 anos de origem palestiniana, Shiran Shiran, aponta uma pistola à nuca de RFK e atinge-o mortalmente na cabeça. Resiste por um dia, mas morre na madrugada de terça-feira. O pais estava mais uma vez em choque.
Saltemos mais algumas semanas em 1968, para o dia 4 de Abril, uma sexta-feira. Em Memphis, no Tenessee, Martin Luther King, o proeminente líder dos Direitos Civis, e que cinco anos antes tinha feito o famoso discurso "I Have a Dream", era morto a tiro na varanda do motel onde se instalara, na cidade.
O atentado ocorrera à tarde, e já tinha sido feito uma emissão especial dirigida por um jovem Dan Rather (que sucedeu 15 anos depois a Cronkite na CBS Evening News) logo, houve mais do que tempo para fazer directos da cidade, e recolher elementos sobre as ondas de choque que estavam a acontecer na América nesse dia, cijas tensões raciais latejavam, ainda por cima, em ano de eleições presidenciais, onde a América, envolvida até à medula pelo atoleiro que era a Guerra do Vietnam, também combatia nas ruas contra este envolvimento numa guerra injusta (recorde-se, em 1968, o recrutamento era obrigatório nos Estados Unidos).
No final daquele dia, Walter Cronkite, no seu CBS Evening News, resumia os acontecimentos desse dia. De maneira sobria, mas decidida, e sobre o impacto que aquilo iria ter na sociedade americana. Entre as peças que se encontram neste video, está uma declaração do então presidente Lyndon Baines Johnson, e uma parte do seu famoso ultimo discurso, onde afirmou que "tinha chegado ao topo da montanha". Palavras proféticas...Naquele ano tempestuoso de 1968, este era mais um episódio turbulento. Outros iriam surgir, infelizmente...
Passemos quatro anos e poucos meses no tempo, desde o brutal assassinato de John F. Kennedy, e chegamos ao inicio de 1968. Nesses quatro anos e pouco, o seu sucessor, Lyndon Baines Johnson (LBJ) envolvera-se numa guerra sem fim num sítio recôndito do Sudeste Asiático chamado Vietname.
Desde 1945 que esse antiga colónia francesa se tentava libertar do jogo colonial francês, o que conseguira nove anos depois com a vitória sobre o exército francês na Batalha de Diem Bien Phu. Nesse ano, foram firmados os Acordos de Genébra, que permitiram a divisão do Vietname pelo paralelo 17, entre o Norte comunista, e o sul ocidental. Só que esse Sul era na prática uma ditadura corrupta, que precisava incessantemente do auxilio americano para resistir às investidas comunistas, pois estes não tinham desistido do sonho da reunificação.
Em 1963, o então presidente Diem foi assassinado, num golpe de estado palaciano, e os americanos ajudavam o país em incessantes hordas de "conselheiros", um eufemismo para dizer tropas. Kennedy sabia mais ou menos que o Vietname era um atoleiro e hesitava em intervir militarmente. Mas no ano seguinte, o seu sucessor aproveitou um incidente com dois patrulheiros da US Navy para colocar dezenas de milhares de tropas no Vietname do Sul. Começava assim a intervenção americana.
Passaram-se mais de três anos, e a situação no terreno estava num impasse. Os mortos e feridos chegavam às dezenas, a contestação começava a brotar nas universidades e na juventude esclarecida, que queria por todos os meios evitar perder a vida num remoto canto do qual nunca tinham ouvido falar antes. Muitos rasgavam os seus "Draft Cards", os cartões de recrutamento, e numa altura em que o Flower Power desabrochava com a sua poderosa mensagem "Make Love, not War", era provavelmente um dos momentos mais excitantes do século XX.
Em finais de Janeiro comemora-se o Tet, Ano Novo Vietnamita. Nessa altura, os combates diminuem de intensidade, pois as pessoas estão mais preocupadas em comemorar mais um Anov Novo do que pegar em armas. Mas o ano de 1968 ia ser diferente: o exército Vietcong (os "VC's" ou "Charlies" no calão militar) decidiu surpeender os americanos nesse preciso dia, e conseguiu: nos vários dias a seguir, a guerra tinha chegado ao centro de Saigão, com combates a decorrer, imaginem-se, dentro da embaixada americana!
A ideia era tentar ganhar aos americanos no seu próprio terreno e inflingir um poderoso golpe não só à América, como ao mundo ocidental, numa altura de Guerra Fria. Nâo o conseguiram, mas o embaraço foi o suficiente para, por exemplo, os soldados americanos andarem mais de um mês a tentar escorraçar os VC's da cidade imperial de Hué, perto do famoso paralelo 17.
Cronkite foi nessa altura a Hué, para ver os combates "in loco", e chegou à conclusão que aquela guerra não estava a ser ganha, nem se ia a lado nenhum com um conflito que só trazia mortos e estropiados para casa, era um desperdício de meios militares, e já começava a ser contestada em casa. No final de um "Special Report" feito por ele, no regresso ao seu estúdio em Nova Iorque, afirmou que aquele conflito só seria resolvido numa mesa de negociações, pois uma maior escalada da guerra seria como abrir numa perigosa "Caixa de Pandora" que poderia resultar, num caso extremo, "um conflito de proporções cósmicas".
Ao ouvir estas palavras, o presidente Johnson terá dito: "se perdi o Cronkite, então perdi a América". Poucos dias depois, a 31 de Março de 1968, fez um discurso à Nação onde disse uma frase que chocou muitos: "Não procurarei, nem aceitarei, a nomeação democrata para um novo mandato para ser Presidente dos Estados Unidos da América". Quase a seguir, o senador Robert Kennedy (RFK), irmão de John Kennedy, anunciou que iria concorrer a presidente.
À falta de motivos para sair neste Sábado à noite (a não ser que queiram apanhar um frio glacial e uma monumental constipação), achei melhor falar sobre algo interessante referente à minha formação jornalistica, e que foi considerado como "o homem mais confiável da América": Walter Cronkite (n.1916)
Cronkite foi jornalista de profissão durante anos, cobriu batalhas na II Guerra Mundial, e entrou para a televisão, ainda esta era um meio novo. Fora recrutado por uma lenda da rádio, Edward P. Murrow, em 1950, para fazer parte da CBS, estação da qual só saiu 31 anos depois, com o seu nome cravado na história da televisão americana. O termo "âncora" (anchorman no original), foi cunhado em 1952, quando Cronkite era o apresentador das Convenções Democrata e Republicana, que ocorreram nesse Verão. Dez anos depois, em 1962, substituiu Douglas Edwards (1917-1990) como o apresentador do CBS Evening News, e ficou por lá nos dezanove anos seguintes.
Ao longo destes capitulos, vou colocar aqui videos que retratam a história da América (e do Mundo) num período conturbado como foram os anos 60 e 70 do século XX. Todos esses videos têm Cronkite no centro da acção, e demonstram como durante os seus dezanove anos como âncora do "CBS Evening News", passou de um lugar secundário, uma mera sombra do então noticiário mais visto na América, o "The Huntley-Brinkley Report", para fazer da CBS o canal mais visto da América no inicio da década de 80.
E o primeiro video que coloco aqui não é um qualquer: é um pedaço do directo que foi feito na sexta-feira, 22 de Novembro de 1963, dia em que Lee Harvey Oswald disparou a sua espingarda de mira telescópica contra o Lincoln Continental descapotável onde seguia John F. Kennedy, acertando-o por duas vezes, uma delas na cabeça, causando-lhe morte imediata. Uma nação em choque segue colada à televisão às angustiantes noticias vinda da cidade texana de Dallas, numa altura em que não havia CNN, directos sobre directos do local X ou Y, helicópteros a sobrevoar...